quarta-feira, 14 de julho de 2010

Táctil

Soar feito sonho
Um dormir induzido;
E por como e qualquer canto
Um talvez-porquê enfadonho
Descansa entre a fronte
E o travesseiro vazio.

- Sinapses sonambólicas
Tecem profícuas -

E num eco
O lapso julga as milhas milimétricas
Entre as dermes de uma mesma cama.

O choro feito lava escorre pelas mãos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Memorável

Das têmporas faço temporais
E fossilizo o gesto
Na contagem regressiva de tua extinção
Tudo passa
Mas sobretudo você, pela minha cabeça,
Desde a antiguidade
Até o derradeiro cataclismo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Poema terminal (malditando - escarrotologia)

Um tanto ao qual
Verbifico os meios,
Medito.

Dito-me contemplações conjuradas
Pelo fora de mim.
Anseio-me por mentiras rasgadas
Num silêncio rouco.

Pasmem, leitor. Num espasmo da tosse, curo a dor-de-cabeça com um revólver. Essa inspiração desmedida, encontrei por fim no exagero dos lençóis.

E embaixo da cama, a expiração mundana, sôfrega e encatarrada, revela a mim, paciente, o que se pode revelar ao que se põe pelos fins.

Nasci já pelo fim. Substrato de antemão de fungos e bactérias. Esse êmbulo, que é a vida, já me ejacula gradualmente em gordas gotas de torpor.

Fica um beijo aos inertes do universo. Salto do ônibus porque sei que o frio que teleologizo é bem maior que o desse inverno subtropical.

domingo, 23 de maio de 2010

No monólogo à dois, a Razão, como que desistindo diz:

- Sentido, sente-se ao meu lado, e se sinta à vontade de não se fazer.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Projétil

Como parte dos dedos, a inocência coça a realidade. De raspão. O arrepio. O interstício impossível e uma pedra sendo atirada. O ponto. O carinho com os olhos. O gume da lâmina. A paralisia. A adrenalina e a paralisia.

Quando pensar já não te livra de nada, só lhe resta vomitar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A escatológica (a lógica do eco)

A humanidade nasceu com a primeira pergunta proferida no universo.
E o universo, em sua reverberação, matará a humanidade sem resposta.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre a certeza labiríntica

Ai, esse mundo! Esse mundo cheio de exigências. Não aguento esse mundo de exigências. Fodam-se as exigências! Eu quero a ilusão, e quero me desiludir com a ilusão como um apaixonado. Iluminar-me do aleatório. Esse aleatório fatal dos românticos. O aleatório que é mais que um complexo inconcebível. Quero, enfim, provar que alguma coisa ainda pode fugir da realidade. Quero poder salvar qualquer coisa da violência que me preenche.

terça-feira, 11 de maio de 2010

ánima (o lapso em contraponto)

Ocasionada, a esquina intangível de mil almas
Deu-me a tua no relance.

E por essas e por outras que o lapso me permite
A chance do descuido.

(A vida é irresponsável na sua arte de pincelar a violência.
A genialidade advém de saborear a estética,
Tendo consciência de sua condição de parte
Da imagem violentada)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O campo de trigo

Mendigo os segundos que me esquecem de pensar.
Interpelo, assim, ao corvo, que gralha o som
Do sol, o mais opressor dos astros.

domingo, 9 de maio de 2010

Obscer

Poupo a circunstância
E tropeço perdão por delitos idôneos.

Em tempo,
Tomei como partido o inteiro dos teus lábios
Mergulhando-me inerme entre seus rins.

No agora
Faço todo, tomada parte da cena
Contemplada inerte pelo obsceno gesto
De falar o que se pensa.

Não obstante, ela, que me consumia,
Obsessiva, sangra pelo instante
Em seiva, em perfume e torpe,
A negra flor do ciúme.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pela ribalta de vidros abertos

Um falso crepúsculo incrusta-se no madrugar da noite. O fitar dos gatos e o silêncio do frio, me refletem os postes o quão alagado é o mar. Acautelo-me horizontescamente pela lua. Já me retomando de oblíquo, os para-brisas e meios-fios me urgem às proporções. E só me vem ao porta-luva as improduções de sempre, dizendo que o inverso perfeito foi a sorte de ter te encontrado sobre o azar de ter existido... Atropeladas epifanias, os quebra-molas me esperam impassíveis conforme minha onipotência é abalada pelo tanque - agora quase cheio. Combustei-me ao longo da auto-estrada, parte de mim sublimou pelo caminho. Mas não deixo de perseguir, intacto, o horizonte, simplesmente por querer-te um dia ao Índico.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Um limbo e ½

Precisei precisar cada vírgula
Do imensurável
Para isso, degolei meus algozes
Pus-me ao leito e deleitei meus delitos
Por fim
Sonhei com o escatológico
Tornei-me então réu em meu próprio reino
E quando despertei cansado
Entediei-me
Mais uma vez com a desnatureza de acordar
O sol voltou
Como todo dia depois da noite
E como todo dia
Me levantei diante dele
Pois é
A sombra é o fardo dos que enfrentam o sol
De olhos pesados
No quarto cinza-laranja
As memórias do astronauta de pijamas...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cerrado

As pálpebras se encontram, umas nas outras. E os olhos, os olhos se lançam no escuro do próprio corpo. E não há mistério, firmamento ou universo maior que o exame de olhar de olhos fechados.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Des(a)tino

Na pontualidade do atraso te encontrei
E me fiz outro com o acorde que me deste.
No meio da cacofonia do mundo,
A melodia impossível das duas cordas
De um violão desafinado.

deux cœur, de cor.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Soneto da esperança para morena de pintas

Meus cílios gotejam com engodo
Pupilo do piscar das suas pupilas
Nossas lágrimas imitadas diluídas,
Embebidas pelo acre do absurdo

No relance eu lanço como aborto
Cada qual, inesperanças digeridas
Tua falta me abre as feridas
Outro fantasma levanto absorto

Teu choro enchente que me afoga
No tango de nossas imprecisões
Teu beijo o poente que me afaga

No semblante de mil dimensões
Toda minha angústia naufraga,
Castanhos das mil impressões.