quarta-feira, 10 de abril de 2013

Salvação

Salvem-me de minha inocência.
Salvem-me de minha aldeia sem lei.
Salvem-me do derradeiro juízo final.
Salvem-me da infinita terra que me guarda.
Salvem-me do assalto de meus olhos.
Salvem-me do meu canibalismo.
Salvem-me da caça.
Salvem-me de minha própria salvação.
Salvem-me da saliva que sorve de raiva.
Salvem-me da cólera dos teus deuses.
Salvem-me, homens do horizonte,
Desta língua podre que já me lambeu a alma.


sábado, 6 de abril de 2013

Serpente

Eu sonhei com um engarrafamento de proporções colossais. Um engarrafamento em que os tanques de gasolina se esgotavam antes do próximo posto. Sequer haviam postos de gasolina por perto, pois nada pode estar perto da inércia absoluta de um engarrafamento daquelas proporções. Os ambulantes oportunistas eram todos  milionários. Não restava mais nada a não ser o indulgente medo de sair do carro. Ao longo da serpente prateada de automóveis imóveis, um só organismo paralítico, que retroalimentava sua própria condição. Um engarrafamento sem porquê, com todas as razões que levaram-no a existir, o fluxo total em um único sentido em uma única direção. Acordei aliviado na profusão de uma calçada fria, os carros buzinam e minhas muletas são onipotentes.
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sexta-feira, 29 de março de 2013

Almoço grátis

Um castelo de cartões de crédito,
Que sustentava o mundo, desabou com o vento.


O escalafobético e a borboleta

Hoje. No fundo do agora incidental. Em toda sua esquizofrenia e realidade. Este segundo. É um segundo total.


Se não fosse pela desatenção em assistir o entreabrir da tua boca.



domingo, 24 de março de 2013

Desilusão



O zeta se aproxima
De cima em linha reta

No cataclismo disfarce
Da faca, da face

No hiato dos lábios
Em tempestade solar

Para selar o consolo
E desiludir o trôpego pulso
Em alta pressão

Porque a água que limpa
É também a que afoga
Os afagos guardados no coração

E no seco gole da saliva
Raiar um sol indiferente
Que te liberte do disfarce
Do falso sorriso entre os dentes
Da faca, da face
Da farsa e da foice

Contar a realidade
Por baldes de água fria
No pôr solar da cidade
O que é é não ser o que seria

E por definição
O horizonte alheio
Fazer brotar em teu seio
A epifania da morte da ilusão.





quarta-feira, 20 de março de 2013

Aluno

Na borda daquela velha caneca, eu imaginei o teu batom mais baixo. E abri o livro feito tuas pernas. Era de poesia, como os teus olhos. Era em japonês... e era breve. Dizia assim a tradução:

Zombe da penumbra
A desilusão consola
O que o amor esclareceu


Lembrei-me de quando te esquecia. E, de repente, me esqueci de como não entendia nada de você..


terça-feira, 19 de março de 2013

Aluno (escancarado)

Poder poluir o papel branco
E delinear a melodia que suprime o inaudível barulho do caos
Ressoar na frequência que chamam de silêncio.

E o silêncio, o papel branco.

Desamparar-se do barulho
E do que falta entre as certezas escancaradas de um sorriso.

Fingir pode ser ser.
Abro um livro como as tuas pernas.
Bacanalizo o barulho que transborda de tua respiração.

E dizem que o branco opaco do muro representa a liberdade.

O ledo engano do artista.




quarta-feira, 13 de março de 2013

Gônada

Ler com os dedos
O braile do teu corpo.
Lamber o delta do teu sexo
Liquefazendo o teu plexo.
Fazer brotar do ovo
E germinar tudo de novo.


domingo, 10 de março de 2013

Predador

Chegada a hora, estava preparado. Era sua prova de fogo. Retornaria com o crânio a tribo, após aquela temporada vivendo em plena solidão. Passou luas à espreita, e fazia parte do rito assistir o nascimento e crescimento da caça até que no momento certo, quando o animal estivesse em pleno equilíbrio de forças consagraria a comunhão de sua morte numa luta justa. Fazia alguns sóis que perdera a fera de vista. E sabia, de alguma forma, que naquela tarde chuvosa se daria o derradeiro encontro. Seu olhar era fixo e, no cair do sol, pressentiu o fitar oblíquo da pantera, que já se camuflava junto à noite. Imóveis, se entreolharam sob a fina chuva. A observação durou até que houvesse apenas dois círculos dourados que flutuavam na escuridão. No transe de um instante, um relâmpago desenhou a silhueta do animal. E antes que o trovão pudesse bravar, ele sentiu pulsar a floresta pelas veias e a sua própria mandíbula penetrar em seu pescoço. A presa estava morta.



Antropomorfina

Uma palavra hermética
A comicidade onde vivo...
De repente, num deslize,
O minotauro me pisca de soslaio.


sábado, 9 de março de 2013

Necessidade e preguiça

A necessidade me levaria a escrever
bíblias de tristeza
estantes sobre o amor
livrarias da condição humana

A preguiça me arrebata
E o universo se condensa num verso.


quarta-feira, 6 de março de 2013

Velado

É teu aniversário. E supostamente deveria dizer alguma coisa. Obrigo-me a dizer qualquer coisa, inclusive dizer que não me esqueci dele. Mas sobretudo que tudo que disser será banal, frente a tudo o que poderia ter dito. Dessa forma, como se pudesse velar o silêncio. E como se o silêncio não fosse um gesto absoluto. Eu o entrego. Não o vulgar, mas o apraz silêncio entre o olhar e o horizonte. O silêncio com os pés afundados na areia, e o mar batendo ao tornozelo. Para o teu bem, um silêncio ensolarado de desejo, de palavras por dizer.


sábado, 2 de março de 2013

Sacrifício

por debaixo da saia da ciência
por entre a cerca
a plantação de carros
E a mecânica da natureza
os sons que me asseguram que as coisas existem que me acercam
enquanto que Morre deus
no hecatombe dos eus
que me acercam e me são

sexta-feira, 1 de março de 2013

Santa Sebastiana do Rio de Janeiro

Beira abril
No coração aberto
Sob a sombra
Do mormaço
Tua raça de perfil
E teu balanço incerto
Tua beleza que sobra
O quadril do Brasil.


Epífano

Eu despontei num mar de estrada
As léguas de um infinito e meio
E no domínio completo da simplicidade
Dei por mim nessa cidade
Qual um qualquer que sabe nada
Fiz do pranto um ponto
final.

(em que afinei meu verso pra continuar seguindo)