sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Testamento

 O poeta morreu.

Sem ser expulso da acrópole.

Sem a censura ou a falta de audiência.

Morreu como qualquer outro ser que morre por estar vivo. O poeta poderia não ter escrito sequer uma poesia. Poderia não ter feito nada, que ainda assim teria morrido.

Mas enfim, o poeta morreu. E morto, despido da insignificância, vestiu-se do mistério que sempre tentou descrever.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Paraíso perdido

 Na relapsa luz

  Do infinito

- o inferno

  Vestido de silêncio.


 Quantas

Estrelas cabem no céu

 E quanto cabe de passado

Na abóboda da noite?

 

 E o que nos espera

Enquanto sentenciamos

O presente ao fardo

Da esperança?





sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cruzeiro

Num vacilo deslizante

A impressão impressionante

Do acaso.


E por ele, esta certeza 

- a de que até mesmo

A linha reta do destino

É uma silenciosa

Comunhão

De encruzilhadas.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Malabaris

Interregnos
 De noites mal dormidas:

Me falta o português
 No inglês
E toda linguagem
 No sentimento.

Mas sigo
 Brincando com palavras
No escuro

 Enquanto a escuridão
Brinca comigo.


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Cantam pássaros às 2 horas da manhã. Um canto que deve ser um grito na língua das aves. Vivo ultimamente suspeitando da vida. Talvez seja também o suspeito de algum crime. Me reservo ao direito de permanecer calado. E no silêncio da noite, os gritos dos pássaros soam feito um aviso.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

2

Indecifrado

Indescritível

Indevidamente

Dividido

Em dois

O tudo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Trocado

Em ângulos retos

Da parede de concreto

Ao perfil do seu sorriso

Eu meço de improviso

A dor, como quem conta

Um trocado a toa, e doa

Aos quem tem fome

Pra aliviar o desespero

De se lembrar do próprio nome

Ou de se olhar no espelho

Procurando outrem.


Inverno

A realidade nasce como aborto da fantasia - em toda sua integridade - seus mecanismos, lâminas e roldanas, e parafusos, porcas, e seus circuitos, resistências e processadores -  seus algozes, vítimas e motivações. Tudo alimentado por essa seiva agridoce - pela máquina. Nascida espontânea e morta na sequência. O real que somos, e nos entregamos como oferta, é - e reduz-se a apenas um instante que queima num oceano congelado de uma era glacial, de um mundo que desliza calmo pelo universo rumo a paralisia total do próximo horizonte de eventos.

Estou em casa, e desligo o aquecedor pra me sentir mais vivo.