segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Paraíso perdido

 Na relapsa luz

  Do infinito

- o inferno

  Vestido de silêncio.


 Quantas

Estrelas cabem no céu

 E quanto cabe de passado

Na abóboda da noite?

 

 E o que nos espera

Enquanto sentenciamos

O presente ao fardo

Da esperança?





sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Cruzeiro

Num vacilo deslizante

A impressão impressionante

Do acaso.


E por ele, esta certeza 

- a de que até mesmo

A linha reta do destino

É uma silenciosa

Comunhão

De encruzilhadas.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Malabaris

Interregnos
 De noites mal dormidas:

Me falta o português
 No inglês
E toda linguagem
 No sentimento.

Mas sigo
 Brincando com palavras
No escuro

 Enquanto a escuridão
Brinca comigo.


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Cantam pássaros às 2 horas da manhã. Um canto que deve ser um grito na língua das aves. Vivo ultimamente suspeitando da vida. Talvez seja também o suspeito de algum crime. Me reservo ao direito de permanecer calado. E no silêncio da noite, os gritos dos pássaros soam feito um aviso.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

2

Indecifrado

Indescritível

Indevidamente

Dividido

Em dois

O tudo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Trocado

Em ângulos retos

Da parede de concreto

Ao perfil do seu sorriso

Eu meço de improviso

A dor, como quem conta

Um trocado a toa, e doa

Aos quem tem fome

Pra aliviar o desespero

De se lembrar do próprio nome

Ou de se olhar no espelho

Procurando outrem.


Inverno

A realidade nasce como aborto da fantasia - em toda sua integridade - seus mecanismos, lâminas e roldanas, e parafusos, porcas, e seus circuitos, resistências e processadores -  seus algozes, vítimas e motivações. Tudo alimentado por essa seiva agridoce - pela máquina. Nascida espontânea e morta na sequência. O real que somos, e nos entregamos como oferta, é - e reduz-se a apenas um instante que queima num oceano congelado de uma era glacial, de um mundo que desliza calmo pelo universo rumo a paralisia total do próximo horizonte de eventos.

Estou em casa, e desligo o aquecedor pra me sentir mais vivo.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Culto

Em seu repertório
De poluição
A cidade faculta
Ao povo, sua cabeça.

Seguimos entregues
Como oferta
No ritual de nossa cultura
Apócrifa.

Nada escapa
A autofagocitose
Cínica
Do capitalismo.

Toda alma está à venda
Mesmo que não tenha
Quem a compre.




terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Sofá

Iludido pelo tédio, olhava o teto como quem olha para o ceu tentando encontrar uma nuvem que lhe fosse familiar. Mas através do teto, a névoa completa, e através da névoa o céu azul, e atraves da refração da luz na atmosfera, o vazio contornando a distância entre as estrelas, a matéria escura à flor da pele. Suspirou aliviando o universo de ter chegado até ali. E desligou num sopro a dinâmica silenciosa do contínuo. Viveu o presente por um segundo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Interlinguística

Lip is a thing
Lábio é um desenho de infinitas possibilidades
Lip, um lábio.
Leap,
Um salto (de fé) infiel.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Meio

Suponho

O subreptício,

Sobrepondo

Cada subversão.


Sou como

A semente,

O acúmulo

Do que sobrou.


No interim

Entre o resto

E a floresta.



terça-feira, 30 de setembro de 2025

Execução

Por um acaso

Feito.

Em todo caso,

Foi-se

O que me fez.

Fiz pouco

Disso

Como sempre

Faço.

Um tanto

Dito

Sem qualquer

Lastro.

Fiz

Desfeita

Feito

Quem faz festa

Com a fita

Do que se desfez.

Sou desafeto

Do feitiço,

Mas desato

Os meus sapatos

Pra sentir

O asfalto.

Subo

Ao cadafalso.

E me põem

A toca

Como

Me vestindo

A roupa.

Vendi-me ao Fausto

Por um segundo

Pra ver o mundo

Depois 

De morto

À forca.






terça-feira, 29 de julho de 2025

LA

Descrita
Pelo fuso
O dia resta claro
Enquanto o mundo descansa.

Não sabem lidar
Com tanto sol
E tanta ausência 
de nuvem

Azul brutal
O céu Pacífico.

Aqui é como quando
Um espaço-tempo
Livre de temporais
Mas de eventuais
Tornados de fogo.

Coiotes
E tubarões-branco

Um refugio de sonhos insônes
E pesadelos à luz do dia
Cidade dos anjos
Caídos com fome no Skid Row
Lapidados na calçada da fama

O sol emplaca o soul
Tem um swag no swing
Da brisa na sombra
Asfalto e aço forjam
A promessa do rock n roll

Cigarretes
& Butterflies
In Mulholand
Drive


terça-feira, 22 de julho de 2025

Obituário

Morte -

Face bruta da saudade -

Lenta ou súbita -

Sempre um corte -

O despertar

Do sonho da realidade -

Remissão

Sem remetente

Destino

Sem destinatário -

Somos discípulos do ausente

In memoriam do inevitável.


quarta-feira, 2 de abril de 2025

O rio mítico

Permito
Um novo destino aparente
Sem entrar em contradição.

Uma certa envergadura moral
Necessária
Pra ver até onde a vida possível
Pode me levar.

Mas sigo no mesmo no contexto,
Apenas vejo se desdobrar
O que sempre havia sido
Latente e necessário.

Mas que nunca havia
Percebido.