Em um parque abstrato, uma mulher concreta chora. O parque e a mulher existem menos do que o que passa pela sua cabeça. Há algo que passa. E continua. E continua. E continua. E continua. O parque e a mulher permanentemente passam. E continuam.
Ela se sentia anestesiada. Quando saia, ria com os amigos. Mas cada felicidade era trivialmente banal. Gostou quando sentiu o inverno chegando pela água da torneira. O espelho a refletia evasiva. Ela não estava gorda, mas duvidava do próprio reflexo. Uma formiga parecia mais interessante. Não sentia fome, e o mesmo cd não parava de tocar ao fundo. Foi para a sacada e chorou, era o gás lacrimogêneo da Delfim Moreira.
O vento da mudança sopra morno:
A violência é um precedente aberto de desejo.
Somos todos o grito e o lamento,
E o que toma o ar a todos nos sufoca.
O espaço-tempo a todos move e envelhece
Em cada circunstância, a ânsia por afeto
E o desentendimento das mãos de um mesmo corpo.
O flagelo que sustenta o inexorável
São estes ovos de serpente que chocam
E que somos uns aos outros sem saber.
Cansei de recauchutar velhos versos
De extrapolar o ordinário na mesmice
Porque bem no meio do tempo
Bem no umbigo do passado antigo
Eu posso enfiar o dedo e sentir
a cicatriz
do teu amor mal resolvido
da tua origem sem sentido.
Porque no meio do tempo
há o mecanismo por trás do relógio
Uma roda que gira a outra
E a outra, e a outra,
a energia que movimenta
a primeira é uma pilha velha
carcomida de ferrugem
que o tempo não mediu.
O ponteiro é cruel
Ele aponta como eu
O seu umbigo
O tempo que nos resta
Até sermos todos umbigo
Um vazio circunscrito
Que já foi a ponte alimentada por alguém.
O membro vermelho
Do lado esquerdo do peito
Numa frequência esquizofrênica
A onda toma e dispersa
A areia calejada de dor
Infiltra movediça
Até que o sangue seque
Coagule no canto
Até que os olhos oscilem
Despertos na calmaria
Há nos patrimônios conserto
E no concerto dos sem vez
A maré retumba de sangue
A chacina dos sem nome,
Só se identifica o sargento
E que as balas embebidas do rio Lete
Desaguam letais como o silêncio.
Guardo em uma de minhas muitas gaiolas, o teu desejo indômito. Em seu desespero singular, ele circunda a sala medindo espaço. Semanticamente, lhe atribuo outros nomes em novos lugares. A temporada passa feita a brisa escura de uma manhã de sol. O despertar difícil e aprazível do domingo, e só o subversivo significa senão você. O edredon feito o teu corpo, o calor feito o teu beijo. A gravidade me escancara de preguiça. E o bocejo é a resposta involuntária em tentar te engolir.