sábado, 20 de julho de 2013

O ballet no Everest

Dançou ballet no Everest
Mas a escuridão vem como soco
E não havendo coisa a se atentar
A respiração é contada:
Um (inspira)
Dois (expira)
Três (inspira)
Precisa expulsar o frio
Mas só o tem
E o precisa.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Passando

Em um parque abstrato, uma mulher concreta chora. O parque e a mulher existem menos do que o que passa pela sua cabeça. Há algo que passa. E continua. E continua. E continua. E continua. O parque e a mulher permanentemente passam. E continuam.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lacrimogênese

Eu quero teu peito amostra
Tua pele nua

Desarmada da borracha
Do escudo de plástico

Eu quero teus olhos atentos
lacrimogêmeos

Corpo-a-corpo
E oxigênio

A carne crua
E o pé descalço

E braços
Inalcançadamente abertos

Eu quero te arder
através e por dentro

Tragar o teu suor
E me afundar em teu cheiro

Sem partidos
E sem governos

Eu quero ser
a própria multidão em você.





quarta-feira, 10 de julho de 2013

Tríptico grave

um plano branco
gravado

um disco negro
gravado

um braço exposto
gravado




O livro

O vinil

A tatuagem




Olhos

Ouvidos

E pele

Sintonicamente apurados

Na gravidez de gravarem

A gravidade sentida.


A noite

Ela se sentia anestesiada. Quando saia, ria com os amigos. Mas cada felicidade era trivialmente banal. Gostou quando sentiu o inverno chegando pela água da torneira. O espelho a refletia evasiva. Ela não estava gorda, mas duvidava do próprio reflexo. Uma formiga parecia mais interessante. Não sentia fome, e o mesmo cd não parava de tocar ao fundo. Foi para a sacada e chorou, era o gás lacrimogêneo da Delfim Moreira.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Nômade

No teu reino,
Um entreposto de incertezas
Mirante do horizonte

Da clareira no campo
O céu anoitado esclarece nímio

Descobertos vales
A seiva corre livre
Essência

Há em frondosas sombras
O discreto brilho
Contornado do olhar

Tua selvagem floresta 
abriga indomada beleza
O triste mistério natural

No escuro, o relevo acidentado
e colinas suaves de relva

A ameaça das cores invade
nuvens adormecidas
e revela montes longínquos

O dia enrubescido
E o brilho discreto da sombra 
dispersam a leve brisa

A terra envolve
E cada fruto emana
O aroma de sua história

Os passos
rumam livres e todo tempo
É a própria descoberta

domingo, 7 de julho de 2013

Vertigem


Vi amar
-te


D'uma
janelanua

Vermelhor
o ôco

Azular
o corpo

Solarizar
o osso

Enluarar
a carne


Via ser
-te


Cadenciar
A boca

Silenciar
A face


Vi ater
-te


Libertin
arte toda

Horalizar
O tempo

Sussurrar
Suando

Soarizar
o vento


Verter-me
Em ti

Por ter-te

Em mim

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A velha pele

O vento da mudança sopra morno:
A violência é um precedente aberto de desejo.
Somos todos o grito e o lamento,
E o que toma o ar a todos nos sufoca.
O espaço-tempo a todos move e envelhece
Em cada circunstância, a ânsia por afeto
E o desentendimento das mãos de um mesmo corpo.
O flagelo que sustenta o inexorável
São estes ovos de serpente que chocam
E que somos uns aos outros sem saber.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

mar remoto


A pegada se esvai
na segunda marola

E tudo existe entre a paciência e a morte.




sábado, 29 de junho de 2013

Contagem regressiva

Cansei de recauchutar velhos versos
De extrapolar o ordinário na mesmice
Porque bem no meio do tempo
Bem no umbigo do passado antigo
Eu posso enfiar o dedo e sentir
a cicatriz
do teu amor mal resolvido
da tua origem sem sentido.

Porque no meio do tempo
há o mecanismo por trás do relógio
Uma roda que gira a outra
E a outra, e a outra,
a energia que movimenta
a primeira é uma pilha velha
carcomida de ferrugem
que o tempo não mediu.

O ponteiro é cruel
Ele aponta como eu
O seu umbigo
O tempo que nos resta
Até sermos todos umbigo
Um vazio circunscrito
Que já foi a ponte alimentada por alguém.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Letreiro

Um letreiro estroboscopicamente pisca no fundo do cérebro
Não posso ler o que está atrás dos olhos.


THE STATE MENT

THE BREEDER
THE BREAD
THE BREED
THE BED

THE READER
THE READ
THE REED
THE RED

THE FEATHER
THE FRET
THE FEET
THE FED

THE LADDER
THE LAD
THE LEAST
THE LAST

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Manifesto

Afino o pensamento
E o encobrem de cimento
O que me incorre do esgoto
É o tempo que se esgota
E a sola que se perde
Do sapato que separo

E lustro
E oscilo
E alucino
E manifesto

Cada centímetro
A rua está aberta
Do efeito imoral
Que nos condena

E fervo
E grito
E choco
Evoco
E corro

O que corrói este laço
A sombra o poste o asfalto
A multidão e o pedaço

Os buracos da lua no alto
Me lembram que toda paz
É uma mentira que se faz
Do subverso livre do caos

E volto
E chuto
E choro
E gravo
E fito
Revolto

Os cavalos
Domados de medo
E os tapumes
Nas vitrines de vidro

A verdade incorpora
Em estilhaços e fogo
E somos todos a espora
E o transbordar do esgoto.


terça-feira, 25 de junho de 2013

Maré

O membro vermelho
Do lado esquerdo do peito
Numa frequência esquizofrênica
A onda toma e dispersa
A areia calejada de dor
Infiltra movediça
Até que o sangue seque
Coagule no canto
Até que os olhos oscilem
Despertos na calmaria
Há nos patrimônios conserto
E no concerto dos sem vez
A maré retumba de sangue
A chacina dos sem nome,
Só se identifica o sargento
E que as balas embebidas do rio Lete
Desaguam letais como o silêncio.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Arpoador

Guardo em uma de minhas muitas gaiolas, o teu desejo indômito. Em seu desespero singular, ele circunda a sala medindo espaço. Semanticamente, lhe atribuo outros nomes em novos lugares. A temporada passa feita a brisa escura de uma manhã de sol. O despertar difícil e aprazível do domingo, e só o subversivo significa senão você. O edredon feito o teu corpo, o calor feito o teu beijo. A gravidade me escancara de preguiça. E o bocejo é a resposta involuntária em tentar te engolir.