quarta-feira, 24 de outubro de 2012

As outras


Flertei-te os olhos.. por outra mulher

Senti-te o perfume.. por outra mulher

Afaguei-te o cabelo.. por outra mulher

Beijei-te a nuca.. por outra mulher

Lambi-te os seios.. por outra mulher

Disfrutei-te o orgasmo.. por outra mulher



Deitarei-me com o mundo, até tê-la por inteiro.




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Há uma maçã
Comida

Há um pedindo
Comida

Há uma unha
Comida

Há uma mulher
Comida




terça-feira, 23 de outubro de 2012

6


Deves saber que o tempo é carregado de balas
E passa em roleta russa
Na sorte improvável do ponteiro
A ponta cintilante da baioneta.

Deves saber que a tradição esconde por baixo da pompa
Suas valas rasas
A carne fétida dos fetos anômalos
É o adubo e perfume dos jardins reais.

Deves saber que não é possível saber tudo
Os sábios servem-se da seiva da ignorância
E ejaculam profecias
De conversas roubadas no bar.

Deves ter um amuleto de fé
Para lamber e cuspir o fel do mundo
E afogar a rotina num fascínio banal de céu
Ainda que cinza.

Deves acreditar no imponderável
Dormir e sonhar
E acordar do pesadelo de que o imponderável mora entre o nariz e a nuca
Mas sem esquecer de tirar as remelas dos sonhos bons.

Deves não dever nada
A nada, a ninguém
A tudo, a alguém
E ao Não.



sábado, 13 de outubro de 2012

edredom


O pulso
Pela tua vulva
O pulso
Repulsa
O púlpito (onde recitam
Tu)as pupílas
Eu nunca vi neve, senão por você
Quanto mais derretê-la só pra mim.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

(!)?


Com quantos deslumbres se faz um fascínio?
Com qual intensidade se pode poder alguma coisa?
Existe morte em Marte?
...

(As respostas são perguntas sem entonação.
E já me basta de respostas, o mundo.)

 ...
Quanto de mundo se pode auscultar?
Qual o timbre da tua ressonância?
Qual a afinação do teu silêncio?
...



domingo, 30 de setembro de 2012

Perfume

              

                O gondoleiro estava indisposto. Dizia que havia tomado todas na noite anterior. E era cedo. A mulher, pela primeira vez naquela cidade tão particular, vislumbrava cada pedra. No verão quente mediterrâneo, a cada ponte, uma saudosa lembrança fetal de acolhimento à sombra. Lembrei subitamente do amor passado com o cheiro de merda que singrava com o barco. A especificidade do lugar não me era incomum - estive ali antes. (minha memória olfativa é mais tenaz do que a dos outros sentidos). E não fazia sentido, aquela cidade ser a mais romântica das cidades do Ocidente. Lembrei que pensava "a cidade inteira deve despejar seus dejetos n'água". E pensei novamente que talvez fizesse sentido todo aquele romantismo. Afinal, amar é sobretudo a intimidade dividida. Os humores, os fluídos corporais.. pensei no aumento do nível do mar.. e a beijei cinematograficamente.



sábado, 22 de setembro de 2012

Neblina

Nesta manhã, a turbidez das nuvens
Faz com que o sol opressivo se finja de uma apraz lua luminosa.
A nébula flor
Floresce diante de nossas mandíbulas
E o ranger de nossos dentes raspa a civilização.
Incapaz de tingir ou fabricar o quadro sem arestas da paisagem,
Voltamos-nos todos ao instinto selvagem da beleza.



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Haicai essencial


O grão é planta
Em toda sua essência
A planta muda.



domingo, 9 de setembro de 2012

O olho nu


A diversidade de nuvens me faz lembrar da totalidade de pensamentos que incorrem pela sua cabeça.
E pela sua doença me atravessam os pesadelos e tormentas de um mar indomável e sintomaticamente obstinado em sua luta particular contra as rochas.
As arestas dos edifícios me remetem a tenacidade de tuas unhas pintadas, e os afagos dissolutos do vento.
As tuas futuras rugas, eu as vejo dos anos-luz do horizonte, a desfragmentação do universo.
Já não sei onde te começo e termino.
Tornei-me o intervalo entre você e não-sei-o-quê..


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Bilhete




Ouvi dizer que passastes dizendo que passaras ouvindo o que eu dizia.
E dizendo, sem saber que ouviras, dizia eu um dito que lhe despia.
Eu, sem nem saber que existias, hesitei então quando soube - descobri-te o ouvido,
razão-de-ser da minha boca, e de meus ditos, que guardei então,
até que não passasses mais, ou pelo menos, que não dissesses mais que me ouvia.
E quando o canto virou pranto, se foi tudo o que havia, a boca já não dizia
e o ouvido já não ouvia. Até que sobrou o tato, e a mão ávida que escrevia
bilhetes engavetados a mulher dos ouvidos que não ouvia. E foram dois, sete, mil,
até que os bilhetes foram lidos todos do fundo do livro que ninguém lia. Os olhos dela
verteram pelas letras nostalgia. A água do tempo, o transe da vida
tocou dizer que passavas lendo, o que a minha mão trêmula não mais sentia.



sábado, 1 de setembro de 2012

Verborragia

Tua vulva é o vulgo que
Me envolve

Na encruzilhada do quarto
Vejo teus vultos de vidro

Virados do avesso:

Os travesseiros que guardam
teus ácaros;

Os vácuos por entre teus vincos;

E os versos ao vê-la de quatro.



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sisenêg

Criei deus a Minha imagem e semelhança
Quando o sono era tão pesado que não se podia dormir.
Primeiro, fiz o escuro da claridade opressiva do universo;
Depois, o vácuo entre os planetas e outros corpos cósmicos.
Sequei os rios e despedacei montanhas.
Por fim, fiz do homem, o barro, e da mulher, a própria maçã que vomitei.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quântica



De repente.

Sempre ‘de repente’.

( Como se não fosse o olhar sobre o fato. 
Como se não fosse o fato que decantou no tempo que o olhar não viu. )

Bom, de qualquer forma,
de repente (!) parece que, por detrás dessa cortina, duas frações concomitaram de acontecer.

Mas não há palco.

Não há sequer o tempo por detrás da cortina.

E com o perdão do verbo, não há coincidência quando se é o narrador.
Tão somente surpresas deliberadas..

Mas lá, há apenas a cortina defronte ao público.

Uma cortina vermelha que vela tudo que desejássemos ver.

E eu nessa curiosidade islâmica, vivo na espreita do engano de querer o eterno(,) de repente -
Quando a simultaneidade simulada do quadro é o próprio tempo.
E quando eu já narro tudo sendo eu mesmo os dois lados da cortina.



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Prato executivo

Hoje as pessoas não matam pelo medo de verem o sangue.
Pelo nojo de terem que limpar a morte da rua.
Pela preguiça do ter que fazer.

Hoje, não mais que ontem..


0 Esse papo tá me dobrando o estômago.0
- Garçom, um filé bem passado!


domingo, 19 de agosto de 2012

O mar e o vento


Venda-me o mar
No teu dia de chuva

Cante-me o vento
Sem que haja o ar

E eu, feito filósofo da tua fisiologia
Descansarei como um rei
Na transa dos teus lábios

Afogarei os dias e noites em tua silhueta
Num dos languidos sulcos de tua boceta

Até que o tempo conte ao certo
As estações porvir da revolução

E quando o cerco cessar a paciência
Ver o núcleo apodrecer em reverência

Meu reino entregue a tua natureza
A tempestade alheia, a destruição.