quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Relato 1

Há 1 mês e meio atrás, eu projetava a dimensão que a paternidade ia ter na minha vida. Já havia sentido o movimento dos meus filhos na ponta dos dedos, visto e descoberto as suas silhuetas em branco e preto e até ouvido seus corações acelerados. Mas a ficha não havia caído.

Quando eles nasceram, a sensação era a da catarse mais pura.. um sentimento total de quem se depara com o indescritível. Nesse último mês, a minha vida se transformou em absoluto. Esse sentimento indefinido da hora que eles gritaram para o mundo já se tornou por alguns momentos o maior dos medos, a quase exaustão, mas sobretudo, a sensação latente e crescente do maior amor do mundo.

Dois seres na função total de se adaptarem a um mundo que não escolheram nascer. Eles, na expressão máxima da vida e da sobrevivência, na sua relação com todos a sua volta e principalmente com a força descomunal da maternidade, vem me ensinando mais do que qualquer livro ou experiência.

Passado o dia dos professores, eu agradeço por essa sabedoria constante que me chega de presente todos os dias através deles e do que eles causam nos outros. Apesar de toda falência cognitiva que nos acostumamos e que nos distancia uns dos outros, a vida é um elo que nos reconecta com o essencial. Nela cabe um mar de ensinamentos maior que tudo.

Sou cada vez mais as partes daquilo que já não posso mais controlar, mas que me são por inteiro. Repletos de afetos, meus filhos que aos poucos se tornam cada vez mais parte do mundo do que minha, me tornam cada vez mais responsável por todo o resto. Agradeço por esse sentimento de partilha mas também de pertencimento.

Obrigado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Imanência

O cansaço já se torna a parte fundamental da minha estrutura.
E meus sonhos são tangíveis como a chuva.
Não há futuro.
E também não derivo da eternidade do presente.
Mas sinto a saudade correndo em minhas veias.
Talvez eu seja, essa memória incompleta que vaga, como um corpo que procura o equilíbrio osmótico.
Ou ainda um coletivo singular no sentido da dissolução libertadora ou da reprodução revolucionária dos afetos..
Meus filhos choram de fome.
Nada é mais potente que isso.

sábado, 21 de setembro de 2019

Imagine

Se toda criança
Fosse sua

Se toda morte
Fosse dos seus

Se toda beleza
Fosse nua

Se todo outro
Fosse eu




quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Livre-arbítrio

Pelo canal do umbigo
A ácida seiva que te nutre.
Você não pode escolher.

Pelo canal da vagina
A ácida brecha que te abre.
Você não pode escolher.

Pelo canal dos mamilos
O ácido leite que te sacia.
Você não pode escolher.

Pelo canal do estômago
O suco gástrico que te corrói.
Você não pode escolher.

Pelo canal dos ouvidos
A ácida voz que te chama.
Você não pode escolher.

Pelo canal da laringe
A ácida resposta do mundo.
Você não pode escolher.

Pelo canal do desejo
O doce gozo que te ilude
A achar que você pode escolher.

Pelo canal do tempo
O ácido fim que te espera.
Você não pode escolher.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Casa incompleta

Pensa na palavra
Malabaris
Pensa na palavra
Malabaris

Seja um louva-deus
Reze com a foice
Ceife a palavra pelos ares

Pensa na palavra
Chamariz
Pensa na palavra
Chamariz

O desejo é um cheiro no vento
A chuva pelo encanamento
A palavra afogada no chafariz

Pensa na palavra
Que que se quiz
Pensa na palavra
Que que se quiz

Um queijo
Que é a própria ratoeira
A palavra
No gozo da meretriz

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Fronteira

Apodrece a noite enluarada
Tranço o transe que transito
Na ribalta da cidade sitiada
Reflito o refluxo em que hesito
A sorte é uma lâmina afiada
A morte é o pedaço que limito

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Soneto da transmutação

Sigo sentado ao convés
Na conveniência do vento
Sinto entre os dedos dos pés
A calma do mar violento

Salga o doce na boca
A espuma engana a visão
A força do mar é oca
À rocha da desilusão

Mas sábia é a força do tempo
A consistência do ar
Diz que "tudo é movimento"

Da pedra à areia do mar
Ao móvel monumento
Do breu em brilho solar

domingo, 11 de agosto de 2019

Poema ao pai

Me deparo
Comigo
Num semblante seu
No queixo
E no jeito de olhar o mundo

Me deparo
Comigo
Olhando a mim mesmo
Através de você

Me lembro
De como dilacerei
Um sonho
Quando te pedi
Ainda pequeno
A nunca mais me chamar
De Petico.

O meu maior genocídio.

Me deparo
Com meu futuro
Agora
Nessa lembrança
Imanente
Que aguarda e olha
Dois peticos
Como quem olha a você.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Tatazinha

O relance no olho
Um ipê rosa no meio da noite iluminada
A lembrnaça na forma da saudade de você.

domingo, 28 de julho de 2019

Atestado

Você caminha o passo dos mortais.
Dobra a esquina e se depara com o impossível.
Percebe que ele é mais frequente do que se imagina.
Como um micróbio ou ácaro, vive em colônias em seu travesseiro.
Você acaba por se perceber como sendo alimento do impossível.
Um substrato em que ele contamina e mutila aos poucos.
De repente, o impossível já infectou qualquer perspectiva.
Agora, você está imóvel ou se movimenta em função de sua inércia em relação a ele.
Tudo começou naquela esquina.
E passou então a estar tomado pelo impossível.
É ele quem escreve o texto como um atestado de óbito da ilusão.
Ela que via a pluripotência em cada caminho.
Neste momento, asfixiada pelo impossível.


quarta-feira, 24 de julho de 2019

Mulher

(e)ternamente par
o destino na gestação
do acaso

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Design bruto

Estilhaço -

De repente.

A poda lancinante -

Rotina
Guilhotina

Diamante

Sombra
Feminina

Cristalina
Névoa
Na retina






sábado, 13 de julho de 2019

Poêmio

Marjeia o meio-fio
Como quem dança
A beira do precipício

Desatina um verso
Como uma calota polar
Desbrava o oceano

Entrega-se a noite
Como um exilado
Se nutre da saudade





quinta-feira, 11 de julho de 2019

Sem teto

Eu penso nos rendidos que filam as bordas do desdém. Aqueles que sequer viram estatística. Que se escondem sob o ritmo frenético da sobrevivência urbana. E driblam os carros como se quisessem viver. Aqueles os quais desvia a procissão metálica e que servem a referência do medo, da reza dos normais, de suas paranóias. Os donos dos olhos opacos, imersos no horizonte sem ter um palmo de esperança diante de si.

Eu penso neles, e nada faço enquanto o tempo corrói a culpa. Amanhã, sigo no desvio de não pensá-los. Sigo a missa silenciosa e programática pra que o acaso me salve da colizão inevitável ou do destino de me tornar um deles.

Deve amanhecer em breve sob a marquise, e sobre as pedras afiadas das estalagmites fabricadas pelo novo plano de governo. O rolo compressor não cessa, no engenho, no ciclo do centro do tempo paralítico. O sol já esboça prolongar o sofrimento daqueles que morrem na tuberculose da noite mais fria.

Eu tusso.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Previsão do tempo

Enquanto dorme, a frente fria se desloca.

Um certo vento que se dobra ao relevo dos trópicos.

Cada palavra medida nas minúcias de uma vida inteira. O entreolhar firme e cândido da compreensão. O perdão na sua forma mais pura. E também o sexo, despido de erotismo mas repleto de amor. 

Tudo rende-se a expectativa da frente fria, que chega sorrateira sem tremular as árvores.