terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Náusea

Tenho singrado o sagrado

Sangrado, é verdade

Um sangue túmido
Coagulado

Do lado de cá
Ao lado de lá


Eu sangro

Eu sigo singrando

Esse mar de sangue
Esse meu sangue de mar

Que sangra diante o sagrado
Que singra o sagrado nas veias

De velas içadas em meu sagrado mar.

Eu sigo o signo torpe da palavra

Numa ressaca de você.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Elegia móvel

Como o tempo, como eu e o vento
Se move em direção a falta
E quando ao fim, a incompletude salta
Sem a força do movimento

Tal qual o ontem é uma miragem movediça,
Não se sente a premissa da viagem
Mas o céu indiferente da partida

Como o vento não curva e o tempo não volta
Eu te amo com a irreversível culpa
De não saber quem fui
De não saber quem sou

Em não saber quando
é que a aurora ensaia o ocaso

E caso falte de dizer o contrário,
Os versos e a vida tem fim
Ainda que não acabem

sábado, 24 de dezembro de 2011

O manjedouro

Nas manjedouras desta terra
Nascem cristos disformes
E futuros salvadores

Nas manjedouras desta terra
A virgindade mariana
É um estupro casual

Nas manjedouras desta terra
Os reis magos em seus tronos
Os senhores da guerra

Nas manjedouras desta terra
O gado não tem o que comer
No caminho sem volta, o matadouro.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Auto-retrato em natureza-morta

Entre o ir e vir
A corda bamba
Ante ao que sou
Antes nada
Que em vão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Amor em prosopopéia

Incomoda-me essa convulsão de ditos
De sorrisos felizes enquadrados
De alegrias matinais

Descompartilho minhas vísceras
E no madrigal da tarde
Cabe o canto dos que não tem voz

Não quero ter razão,
Muito menos ser feliz

Quero afogar o verão
Numa geleira glacial

Quero teus defeitos
Dançando nus num salão em chamas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sinai (ou Os leopardos de Kafka)

Um bocejo improvisado
Cala os que dirão "dissimular"

Selam as faces plácidas
Imurmuravelmente ácidas

E se rezam preces para os deuses mortos
Cabe, então, a mim a espera do juízo derradeiro

Onde os pontífices sacerdotes dos meus templos
Guardarão inescrutáveis banalidades
Com certezas e lamentos dos que tem fé

E no fel do último gesto
Dirão que ressucitei
Quando de fato, apodreci.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

(Nominado)

Se existe uma cor pra tua voz
É a dos teus olhos

E se existe um sussuro pro olhar
Desaviso 'calma'

Porque sinto a alma nos dedos
Do teu sopro

Transubstancio este cheiro
Que chamam de flor

Defloro o teu nome em verbetes
Sinestésicos

Ahh....
O teu suspiro é a palavra prima

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

inviolável

Existe um pomo de glória
Sob as banquisas do Ártico

E absolutamente nada ousa interromper sua imanência.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cemi

Este plateau inabitável de mar
Me faz lembrar de quando
Os ossos dos meus dedos
Se arrastavam por você
E aterrisavam nos teus lábios

O pôr dos seios
A saudade é ter-te em parte
Semiter-te
Intacta
Por trás
dos beijos
de outros olhos que não são seus.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Rotina

Às terças há uma tendência a morte prematura

Mas a prematuridade é apenas um reflexo do espanto,
Afinal a morte, como todo evento necessário,
Não poderia ser antes ou depois.

E nessa contingência urinária
Eu alivio as possibilidades
Na eventualidade de todo santo dia.

domingo, 27 de novembro de 2011

Os filhos de Loki

No aprumo do céu
Resta a espera

As cidades se alastram
Como estandarte da resistência
ao Acaso

Enquanto não concebermos o céu
A paciência é a última diligência.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ensai[a]r

A primavera arde
E no mausoléu da córnea
A lembrança vitelina
Ensaia fetal seu nascimento

E eis que de aborto
A saudade inaugura
O presente absorto de te
Rever num acidente casual

A causalidade fatal
De que tudo pode acontecer
inclusive absolutamente
nada.

De repente, o sucesso
Se torna uma salva de fracassos
E o que será
Se foi.

[As cortinas se fecham ao teatro vazio]

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Quase e eu (conjectura)

Devo me virar em direção as pessoas
Vestir-me suas calças
Enjaular-me em seus corpos

Ter-los em mim
Seus sonhos
De modo que todos eventos impossíveis
Se tornem movimentos concretos

Todos discursos não proferidos
Todos gestos não praticados
Todos os medos não revelados
Fossem concebidos

E todas as possibilidades
Germinassem espontâneas
Feito idéias não pensadas
Por pessoas não nascidas
Frutos de amores nunca declarados.

O que me faz ver a beleza do mundo
São justamente seus nódulos de nada.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os olhos de gude

Quando
Teus olhos de gude
Caberem em minha mão

Já não seremos
Imunes
Um ao outro

Julgarão-nos
Criminosos
Impunes

Doentes auto-imunes
da gnose virtual
De sermos um

E o que nos une
Será a fenda
que nos corta

No lapso insône
do tédio
Do parapeito
do prédio

serei eu
olhando-me
a paisagem
à par a plenitude
dos teus olhos de gude.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Transposição

Obliquo e inócuo
Um castelo de anagramas
E o calabouço da boca

Eu vejo a metáfora por uma fresta,

E salvo a humanidade.