sexta-feira, 27 de março de 2015

pos içã o

de dentro da rua
- as veias expostas dessa cidade

tudo soa como uma qu3stão de posicionamento

a geometria dos dedos ao rosto

uma crase que falta

ou uma falta que não deixa de ser

estando em outro lugar

os dentes postos nos lábios 

e a sua pressão milimétrica

como a sexta-feira é um lugar no tempo

após ao meio dia, o fractal perfeito da nuvem que anuncia

a causa é um efeito na posição trocada

a chuva é uma parte de sol

e como o esquecimento não deixa de ser a memória dissolvida

eu lembro através de você que não há lugar errado 

ou estaríamos todos perdidos.


terça-feira, 10 de março de 2015

Da janela

Realça deserto
Que te lança
Da tua trança
Me desperto
O sentimento
Do teu seio
Me refrato
Nos mil beijos
Que flutuam
No penhasco
Dos teus olhos

Mas me alcança
Antes que distante
Pelo dizer, o aroma
De um instante
E cintila na ribalta
Que te espera
E me acalma
Feito as gotas
Que se encontram
E deslizam suicidas
na janela.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

- to eat or not tweet


- um ou zero,
eis o algoritmo.


- não há tortura
sem sentimento.


- dar-se conta
é a maior generosidade.




monolítico

dou-me o presente
no domo recente
do vento

livro o homem breve
da vil tempestade
do tempo






terça-feira, 18 de novembro de 2014

vir

os verbos
terminam com R
o R que encerra
o R que raia

termina com -ar
o verbo falar

o verbo da dor
termina com -er
tal como ser

a raiz deste rio
que risca
é o verbo

o eterno retorno
é a regra corrente

sair é o engano do ir
voltar é a farsa
da revolução.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

circular

pude num rejunte
refazê-la em fragmentos
um prosaico claro
do que lembro

mas se ao menos
me fugisse uma lembrança sequer
inventaria se quisesse
um vento que despisse

a alvorada a tocar a noite
no entrelábio do crepúsculo

e te tocar -ainda- sem escrúpulos
com o falo imaginário
da palavra
com a fala incendiária
do silêncio.




terça-feira, 28 de outubro de 2014

no trono

o plágio é só o ágio
da preguiça

em tempo hábil,
nenhuma propriedade é privada

quando se dá
descarga.


sábado, 18 de outubro de 2014

sabedoria

a barba não significa

senão

o resto morto

que te sai

do rosto



sabedoria

é

ser como um bebê

quanto te nasce

a barba.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Incoerente holístico (ou narciso iconoclasta)

Ó verdadeiro, chame-me de hipócrita
Pois do alto signo da coerência,
Miro o estandarte da sua antípoda
Eis a minha ética, eis a minha sina.

Ó falso, chame-me de justo
Pois do raso espelho que reflete,
Sei que sou tão poça quanto gente,
Eis a minha face, eis a minha mente.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

sob (re)



um corpo

sob uma pilha de corpos


u m m orto

so b um a pi lha dem ortos


um som

so b uma pilha de sons


uma vo n tade

so b um ap ilha de v ont ades


u ma mulher

s ob uma pilha dem ulher es


um desejo

sobumapilhadedesejos


umahora

sob u  m a p  i l    h   a   d  e   t  e m  p     o


uma palavra

sob um texto


um sentido

sob todos


um

sob                 re

outro.



terça-feira, 23 de setembro de 2014

haicai remoto

aperte start
pra dar
pause


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

haicai sem sinal

..........................................
(jesus voltou e ninguém viu
não pega 3G na puta que pariu)


domingo, 21 de setembro de 2014

filtro vermelho

do fundo do bar lotado
entre cotovelos brancos
o olhar atilado da mulher
se afixa em sua medula

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*

ela digita algum sinal
indefinido na maça do rosto
apoiado pelas belas mãos
de unhas pretas

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*

a mulher não se cansa
e o olhar se mantém
indefectível à sete mesas
e duas doses de distância.

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*

"mestre, a última e fecha conta!"
"espera, leva isso pra mesa
do fundo na última esquina
do lado da porta de saída"

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*

ela abre o guardanapo
lê e toma o gole final
o provocante sorriso de soslaio
se prepara para ir embora

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*

paixão à primeira vista
única e verdadeira,
se soubesse teu nome,
mandava tatuar

pausa para o cigarro
*meditação à efemeridade*


sábado, 30 de agosto de 2014

haicai breve

a gravidade em greve

a pedra é dura

a vida, leve


sábado, 16 de agosto de 2014

entropia

in-transitável pensamento

da forma se pode esculpir
uma cratera inexorável em um planeta inóspito

a geografia do teu sentimento -


condenado a condição de existir

o ser é o verbo em movimento