sábado, 28 de agosto de 2010

Céu-metria (poêmia)

Num horizonte ébrio
Turvo diagonizar cada linha

E poro por poro vou expelindo
Tudo que latejei por você

- Cada vibração, cada pulsar
de um firmamento meu
que a tinha hipotenua, sedente
em láctea tocante supernova -

Tudo liquefaz sentido -
Constelar num sopro
O que contei uma vida inteira:

A distância é o que faz o dia ser dia
E a noite ser noite.
De perto, o sol te traga
De longe, as estrelas te esquecem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Transcendência

Cesso de lutar com o destino -
Todo porvir é presente.

Cesso de lutar com a palavra -
Toda verdade é um gesto.

Cesso de lutar com o ego -
Tudo é unidade.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Implacável

No corte, na sede,
Na fome, no medo,
No azar e no zero.

Enquanto houver deserto,
Eu procuro o mar,
Pra chamar-lhe de praia.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Plexo solar

Um céu de nada cintila sobre os ombros
E o espírito colado pelos olhos
Derrama um sorriso

-o orgasmo de que o sol
um dia não fará mais dia
e se consumirá por um buraco,
negro, como a pupila pela qual
serei eternamente vertigem-

Eu passo e.... espero...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Táctil

Soar feito sonho
Um dormir induzido;
E por como e qualquer canto
Um talvez-porquê enfadonho
Descansa entre a fronte
E o travesseiro vazio.

- Sinapses sonambólicas
Tecem profícuas -

E num eco
O lapso julga as milhas milimétricas
Entre as dermes de uma mesma cama.

O choro feito lava escorre pelas mãos.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Memorável

Das têmporas faço temporais
E fossilizo o gesto
Na contagem regressiva de tua extinção
Tudo passa
Mas sobretudo você, pela minha cabeça,
Desde a antiguidade
Até o derradeiro cataclismo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Poema terminal (malditando - escarrotologia)

Um tanto ao qual
Verbifico os meios,
Medito.

Dito-me contemplações conjuradas
Pelo fora de mim.
Anseio-me por mentiras rasgadas
Num silêncio rouco.

Pasmem, leitor. Num espasmo da tosse, curo a dor-de-cabeça com um revólver. Essa inspiração desmedida, encontrei por fim no exagero dos lençóis.

E embaixo da cama, a expiração mundana, sôfrega e encatarrada, revela a mim, paciente, o que se pode revelar ao que se põe pelos fins.

Nasci já pelo fim. Substrato de antemão de fungos e bactérias. Esse êmbulo, que é a vida, já me ejacula gradualmente em gordas gotas de torpor.

Fica um beijo aos inertes do universo. Salto do ônibus porque sei que o frio que teleologizo é bem maior que o desse inverno subtropical.

domingo, 23 de maio de 2010

No monólogo à dois, a Razão, como que desistindo diz:

- Sentido, sente-se ao meu lado, e se sinta à vontade de não se fazer.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Projétil

Como parte dos dedos, a inocência coça a realidade. De raspão. O arrepio. O interstício impossível e uma pedra sendo atirada. O ponto. O carinho com os olhos. O gume da lâmina. A paralisia. A adrenalina e a paralisia.

Quando pensar já não te livra de nada, só lhe resta vomitar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A escatológica (a lógica do eco)

A humanidade nasceu com a primeira pergunta proferida no universo.
E o universo, em sua reverberação, matará a humanidade sem resposta.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre a certeza labiríntica

Ai, esse mundo! Esse mundo cheio de exigências. Não aguento esse mundo de exigências. Fodam-se as exigências! Eu quero a ilusão, e quero me desiludir com a ilusão como um apaixonado. Iluminar-me do aleatório. Esse aleatório fatal dos românticos. O aleatório que é mais que um complexo inconcebível. Quero, enfim, provar que alguma coisa ainda pode fugir da realidade. Quero poder salvar qualquer coisa da violência que me preenche.

terça-feira, 11 de maio de 2010

ánima (o lapso em contraponto)

Ocasionada, a esquina intangível de mil almas
Deu-me a tua no relance.

E por essas e por outras que o lapso me permite
A chance do descuido.

(A vida é irresponsável na sua arte de pincelar a violência.
A genialidade advém de saborear a estética,
Tendo consciência de sua condição de parte
Da imagem violentada)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O campo de trigo

Mendigo os segundos que me esquecem de pensar.
Interpelo, assim, ao corvo, que gralha o som
Do sol, o mais opressor dos astros.