quarta-feira, 26 de maio de 2021

Despedaço

Conecto


O côncavo

Ao convexo


A pausa

Ao peso


Reflito

Sobre


O conflito

Do reflexo


A dualidade

Da singularidade


Aceno

Como despeço


-me ao pedaço

Que fui inteiro.




terça-feira, 25 de maio de 2021

Insone vigilância

 Ouço um verso, e me compadeço aos limites dos sentimentos invisíveis.

Sou feito de pele e palavra. E me dou conta disso depois dessa temporada isolando meus olhos da poesia.

Pelo frio ou pelos lábios treinados dos meus filhos, tenho a singela testemunha do sublime.

Dá-me a vontade de compartilhar e também de dividir ao meio a angústia que é ver passar o tempo e também servir ao seu laboro. 

Em cada hábito e cansaço, um milímetro a mais dos finos fios dourados da nuca do Francisco ou dos cílios indecifráveis do Arthur.

Cerco-me agora como um soldado que se espreita na trincheira. Cerco-me de palavras, munido dos sentidos mais atentos. Aguardo vigilante... não sei bem o quê.


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Faminto

Convergem

Ao virgem fim

Ao nada

As infinidades

Possíveis

Do impossível

A passividade

De um asteróide

Deslizando no éter

E a potência

De um novo verso

Vertido no espaço

A ideia como

Forma concreta

A morte disforme

Da fome

E também o amor

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A Masterclass de como ser um futuro master de masterclasses.

 


Um aluno entra na sala de aula. Só tem ele, e mais de 30 professores que não param de ensinar.. todos ao mesmo tempo.


O aluno acaba sendo expulso de sala por faltar com a atenção. 


Os professores continuam ensinando.. todos ao mesmo tempo, até que algum aluno entre novamente na sala de aula.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A hora do lobo

Nessa hora, sinto que perdi a arte de ser o fiel da balança. O melhor que posso fazer é assistir o inferno queimar sem que eu jogue gasolina. O sentimento é o mesmo de olhar para o espelho e se reconhecer como um monstro. Não sou pai, ou filho, ou sequer humano.. sou um animal indisposto - incapaz de lidar com a beleza, mesmo quando ela também se manifesta em seu estado bruto, em sua absoluta natureza. 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Autorretrato

De dia, a fauna completa dos sentimentos te desenha.
A noite, uma aquarela incerta te respinga
O passar dos meses feito óleo marca suas sombras.
E os anos te esculpem por décadas a fio.
O tempo remodela sua forma.
De uma poesia concreta, resta um bit insondável no meio do espaço.

O acaso cai
Como o sereno
A minha boca
Aberta pro vazio.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Uivo sideral

Se a cadência
Desta torta Terra
Estica a noite pelo dia

Brindo ao breu e ao vento

Sou a demência
Que resiste em guerra
Contra a apatia

E se o silêncio
Que sustenta
A morte me assovia

Brindo ao movimento

Sou inconsciente,
A própria sorte
Dou a vida por outro dia.



sábado, 16 de maio de 2020

Paralaxe

Diz um velho ditado
De um povo que não sabia dizer:
"Seco meus pés em um rio
E aqueço meu corpo no frio"


quarta-feira, 11 de março de 2020

Haicovid

Na calmaria de uma cidade vazia
Um vírus em sua completa solidão
Flutua no ar...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Galilei

Salvo
Posto que há algo
Entre o silvo
De um corpo que cai
E a força indestrutível da matéria

Escrevo
Por traduzir
Do intangível
O elemento que me move
A despeito da gravidade

E salto
Com a certeza inexpugnável
De que desta vez hei de voar..

sábado, 18 de janeiro de 2020

CBD

Qualquer fricção de um trompete no silêncio, compromete meus sentidos.

Estou absolutamente suscetível. Seja lá o que significa.

Mas ainda mais covarde é a harmonia. Daquelas que só concebemos quando deveras suscetível for o seu presente.

E deveras é, categoricamente deveras.. feito o piano que flerta com o caos.

E assisto as notas desenhando o semblante.
Uma esfinge na forma de meus filhos.

E finjo-me na forma de meus filhos.

I guess i'm luckier than some folks
i've known the thrill of loving you
but that alone is more
than i was created for
'cause i was born to be blue

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Fio

O rio corre pelo meio fio
O mar enquanto memória
De uma cidade que não dorme

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Violento

A doença já me chega como um mito que ascende pelo mar. Uma profecia não profética que aos poucos me mutila. Mas a bem da verdade, é que sou parte e consequência da moléstia. Permuto contra a morte cada célula. Me desaproprio de mim pela continuidade da Transformação. Ela que no fundo, é a própria face da violência em seu estado bruto.

Enquanto me engano pelo Equilíbrio. A inércia do pêndulo sem fim.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Aos meus

Caio
Como quem paira
Do avesso

E danço
A densa
Dança do tropeço

Me sujo
Da limpeza
Que me pesa

Mas levito

E revido
Pela mordida
Do meu beijo

O alimento
Que começa
E que me encerra

Os teus olhos
Refletidos
De infinito


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Epifania da fome

Meu presente indicativo
No plural da primeira pessoa
Que atravessa a rua
Pedindo esmolas
Para as almas já perdidas
De tanto jogar o jogo.