Em ângulos retos
Da parede de concreto
Ao perfil do seu sorriso
Eu meço de improviso
A dor, como quem conta
Um trocado a toa, e doa
Aos quem tem fome
Pra aliviar o desespero
De se lembrar do próprio nome
Ou de se olhar no espelho
Procurando outrem.
Em ângulos retos
Da parede de concreto
Ao perfil do seu sorriso
Eu meço de improviso
A dor, como quem conta
Um trocado a toa, e doa
Aos quem tem fome
Pra aliviar o desespero
De se lembrar do próprio nome
Ou de se olhar no espelho
Procurando outrem.
Iludido pelo tédio, olhava o teto como quem olha para o ceu tentando encontrar uma nuvem que lhe fosse familiar. Mas através do teto, a névoa completa, e através da névoa o céu azul, e atraves da refração da luz na atmosfera, o vazio contornando a distância entre as estrelas, a matéria escura à flor da pele. Suspirou aliviando o universo de ter chegado até ali. E desligou num sopro a dinâmica silenciosa do contínuo. Viveu o presente por um segundo.
Suponho
O subreptício,
Sobrepondo
Cada subversão.
Sou como
A semente,
O acúmulo
Do que sobrou.
No interim
Entre o resto
E a floresta.
Por um acaso
Feito.
Em todo caso,
Foi-se
O que me fez.
Fiz pouco
Disso
Como sempre
Faço.
Um tanto
Dito
Sem qualquer
Lastro.
Fiz
Desfeita
Feito
Quem faz festa
Com a fita
Do que se desfez.
Sou desafeto
Do feitiço,
Mas desato
Os meus sapatos
Pra sentir
O asfalto.
Subo
Ao cadafalso.
E me põem
A toca
Como
Me vestindo
A roupa.
Vendi-me ao Fausto
Por um segundo
Pra ver o mundo
Depois
De morto
À forca.
Morte -
Face bruta da saudade -
Lenta ou súbita -
Sempre um corte -
O despertar
Do sonho da realidade -
Remissão
Sem remetente
Destino
Sem destinatário -
Somos discípulos do ausente
In memoriam do inevitável.
A planta baixa
O plano
O imóvel
E a inflação
O papel no cartório
A carteira
E o velório
A caneta
E a rubrica
Tudo circunscrito
E detalhado
Tudo se explica
O procurador
O crime
E o julgado
O ofício
Datilografado:
Papéis
Físicos ou digitalizados
Jamais capazes
De explicar
O inexplicado
Enquanto isso,
Lá fora os coiotes
Uivam de fome.