quarta-feira, 11 de março de 2020

Haicovid

Na calmaria de uma cidade vazia
Um vírus em sua completa solidão
Flutua no ar...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Galilei

Salvo
Posto que há algo
Entre o silvo
De um corpo que cai
E a força indestrutível da matéria

Escrevo
Por traduzir
Do intangível
O elemento que me move
A despeito da gravidade

E salto
Com a certeza inexpugnável
De que desta vez hei de voar..

sábado, 18 de janeiro de 2020

CBD

Qualquer fricção de um trompete no silêncio, compromete meus sentidos.

Estou absolutamente suscetível. Seja lá o que significa.

Mas ainda mais covarde é a harmonia. Daquelas que só concebemos quando deveras suscetível for o seu presente.

E deveras é, categoricamente deveras.. feito o piano que flerta com o caos.

E assisto as notas desenhando o semblante.
Uma esfinge na forma de meus filhos.

E finjo-me na forma de meus filhos.

I guess i'm luckier than some folks
i've known the thrill of loving you
but that alone is more
than i was created for
'cause i was born to be blue

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Fio

O rio corre pelo meio fio
O mar enquanto memória
De uma cidade que não dorme

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Violento

A doença já me chega como um mito que ascende pelo mar. Uma profecia não profética que aos poucos me mutila. Mas a bem da verdade, é que sou parte e consequência da moléstia. Permuto contra a morte cada célula. Me desaproprio de mim pela continuidade da Transformação. Ela que no fundo, é a própria face da violência em seu estado bruto.

Enquanto me engano pelo Equilíbrio. A inércia do pêndulo sem fim.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Aos meus

Caio
Como quem paira
Do avesso

E danço
A densa
Dança do tropeço

Me sujo
Da limpeza
Que me pesa

Mas levito

E revido
Pela mordida
Do meu beijo

O alimento
Que começa
E que me encerra

Os teus olhos
Refletidos
De infinito


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Epifania da fome

Meu presente indicativo
No plural da primeira pessoa
Que atravessa a rua
Pedindo esmolas
Para as almas já perdidas
De tanto jogar o jogo.


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Relato 1

Há 1 mês e meio atrás, eu projetava a dimensão que a paternidade ia ter na minha vida. Já havia sentido o movimento dos meus filhos na ponta dos dedos, visto e descoberto as suas silhuetas em branco e preto e até ouvido seus corações acelerados. Mas a ficha não havia caído.

Quando eles nasceram, a sensação era a da catarse mais pura.. um sentimento total de quem se depara com o indescritível. Nesse último mês, a minha vida se transformou em absoluto. Esse sentimento indefinido da hora que eles gritaram para o mundo já se tornou por alguns momentos o maior dos medos, a quase exaustão, mas sobretudo, a sensação latente e crescente do maior amor do mundo.

Dois seres na função total de se adaptarem a um mundo que não escolheram nascer. Eles, na expressão máxima da vida e da sobrevivência, na sua relação com todos a sua volta e principalmente com a força descomunal da maternidade, vem me ensinando mais do que qualquer livro ou experiência.

Passado o dia dos professores, eu agradeço por essa sabedoria constante que me chega de presente todos os dias através deles e do que eles causam nos outros. Apesar de toda falência cognitiva que nos acostumamos e que nos distancia uns dos outros, a vida é um elo que nos reconecta com o essencial. Nela cabe um mar de ensinamentos maior que tudo.

Sou cada vez mais as partes daquilo que já não posso mais controlar, mas que me são por inteiro. Repletos de afetos, meus filhos que aos poucos se tornam cada vez mais parte do mundo do que minha, me tornam cada vez mais responsável por todo o resto. Agradeço por esse sentimento de partilha mas também de pertencimento.

Obrigado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Imanência

O cansaço já se torna a parte fundamental da minha estrutura.
E meus sonhos são tangíveis como a chuva.
Não há futuro.
E também não derivo da eternidade do presente.
Mas sinto a saudade correndo em minhas veias.
Talvez eu seja, essa memória incompleta que vaga, como um corpo que procura o equilíbrio osmótico.
Ou ainda um coletivo singular no sentido da dissolução libertadora ou da reprodução revolucionária dos afetos..
Meus filhos choram de fome.
Nada é mais potente que isso.

sábado, 21 de setembro de 2019

Imagine

Se toda criança
Fosse sua

Se toda morte
Fosse dos seus

Se toda beleza
Fosse nua

Se todo outro
Fosse eu




quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Livre-arbítrio

Pelo canal do umbigo
A ácida seiva que te nutre.
Você não pode escolher.

Pelo canal da vagina
A ácida brecha que te abre.
Você não pode escolher.

Pelo canal dos mamilos
O ácido leite que te sacia.
Você não pode escolher.

Pelo canal do estômago
O suco gástrico que te corrói.
Você não pode escolher.

Pelo canal dos ouvidos
A ácida voz que te chama.
Você não pode escolher.

Pelo canal da laringe
A ácida resposta do mundo.
Você não pode escolher.

Pelo canal do desejo
O doce gozo que te ilude
A achar que você pode escolher.

Pelo canal do tempo
O ácido fim que te espera.
Você não pode escolher.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Casa incompleta

Pensa na palavra
Malabaris
Pensa na palavra
Malabaris

Seja um louva-deus
Reze com a foice
Ceife a palavra pelos ares

Pensa na palavra
Chamariz
Pensa na palavra
Chamariz

O desejo é um cheiro no vento
A chuva pelo encanamento
A palavra afogada no chafariz

Pensa na palavra
Que que se quiz
Pensa na palavra
Que que se quiz

Um queijo
Que é a própria ratoeira
A palavra
No gozo da meretriz

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Fronteira

Apodrece a noite enluarada
Tranço o transe que transito
Na ribalta da cidade sitiada
Reflito o refluxo em que hesito
A sorte é uma lâmina afiada
A morte é o pedaço que limito

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Soneto da transmutação

Sigo sentado ao convés
Na conveniência do vento
Sinto entre os dedos dos pés
A calma do mar violento

Salga o doce na boca
A espuma engana a visão
A força do mar é oca
À rocha da desilusão

Mas sábia é a força do tempo
A consistência do ar
Diz que "tudo é movimento"

Da pedra à areia do mar
Ao móvel monumento
Do breu em brilho solar

domingo, 11 de agosto de 2019

Poema ao pai

Me deparo
Comigo
Num semblante seu
No queixo
E no jeito de olhar o mundo

Me deparo
Comigo
Olhando a mim mesmo
Através de você

Me lembro
De como dilacerei
Um sonho
Quando te pedi
Ainda pequeno
A nunca mais me chamar
De Petico.

O meu maior genocídio.

Me deparo
Com meu futuro
Agora
Nessa lembrança
Imanente
Que aguarda e olha
Dois peticos
Como quem olha a você.