sábado, 15 de junho de 2013

Maresia

O tiro que silva passa rente
E há um zumbido constante
À calmaria

O penetrável mar
Perverte a pedra
E o testemunho
Que o contempla
Em romaria.



quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quando o poema acabar..

Provável que a válvula tranque
O músculo pulsante e seus canais
Simplesmente falhem de repente
Que a intenção e seus sinais
Simplesmente travem de rompante
E da janela, a paisagem emoldurada
Do horizonte abrigue o instante
Em que tudo parou por não haver motivo.


terça-feira, 11 de junho de 2013

down jones

Roteiro de um filme:

Em Wall Street, um dos acionistas encontra uma mão no chão da Bolsa de Valores. Não entendendo o que acabara de ver, ele e alguns outros que perceberam o membro continuam seu trabalho normalmente.


Pacífico

A sabedoria indecifrável dos olhos

A cachalote emerge

A dúvida é sempre dúbia

Em sua longa cauda

A dúvida é sempre débil

Retornar às certezas abissais

Esperar e segurar o ar

Contra a involuntária contração

Os olhos e o abdome

A espera fortuita do homem

E o medo da luz solar.



segunda-feira, 10 de junho de 2013

In loco

Milagres
Migalhas
A mão que alimenta
O mártir
O cheiro do pão
A arte
E o chão
O cisco
Em um nome
Um gesto
O monte que toco
O aceno
Um beijo obsceno
O sertão que nos cerca
Milagres
Migalhas
A arte e o chão
À luz do dia,
A escuridão em foco.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Zoológico

Não entender, não torna a sentença sem sentido. E fazer sentido, não exime a sentença de não significar absolutamente nada. Há, portanto, a dimensão de uma jaula de possibilidades, que é criada pelo simples fato de existir a consciência.Você consegue ver a estrutura deste ambiente sem saída, ainda que seja impossível mensurá-lo no espaço. O zoológico de Praga está inundado neste momento, e uma cidadezinha do Oklahoma foi dizimada por um tornado. No quarto de persianas fechadas, pensamos em palavras em português, e alguém no Congo contempla formigas que se enfileiram em linha reta. O sol raia à meia-noite em Oslo.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Controle remoto

Consentir inutilmente o novo dia que raia
A nova raiva que brota da mesma segunda comum.
O amarrar do cadarço do velho sapato lustrado
O terno em forma de camisa de força
A barba feita em nome da ordem
O silêncio da serpente biônica
Uma tevê sem sinal e o rádio fora da estação
A superfície incerta do mar.
Existe alguma coisa não assimilada
Alguma coisa autônoma a esta procissão
E o mundo cairá sobre nossas cabeças
Antes que possamos olhar para cima.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Corremos


Corremos atrás do que se move, como cachorros.

A televisão, a mulher, a notícia, o carro, o homem.

Corremos sem que haja motivos como loucos.

Damos voltas na Lagoa, para despirmos-nos da gordura.

Corremos pelas nossas vidas

Quando cachorros correm atrás de nós

Só porque corremos.


A notícia

O terror do mundo

imola e decapita uma aldeia do lado de baixo do mediterrâneo

2 terroristas

imolam e decapitam um aldeão do lado de cima do mediterrâneo

A notícia



segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ave Maria

No desfiladeiro cinza passa o carro do ano. Em um minuto, a densidade demográfica não comporta a umidade relativa do ar. Ocorre que correm todos a sua coerência. E o louco, que assiste o formigueiro com atenção, esquece de almoçar sua alma penada na marmita. Em contagem regressiva, a noite anota de repente, o que contorna com sufoco o velar dos olhos cansados.Terça-feira, 18h07min, o genocídio em praça pública em forma de fila de ônibus.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

co-rente

O mofo no guarda-roupa
E o batom no guardanapo
O guarda-costas sem roupa
E o copo plástico usado


terça-feira, 7 de maio de 2013

espelhohlepse

somos
anagrama reflexivo
som

som reflexivo
eco

eco
anagrama
oce

oce
reflexivo
mim

mim
o anagrama
sem fim


sábado, 4 de maio de 2013

C'alma

A par de tudo que pode ser feito, resigno-me a sábia preguiça. Fazer nada sustenta o equílibrio entre o pouco e o tudo. Concentro a certeza de não ter opções, e as contradições que me afetariam fortuitas já não me acertam, pois do nada que escolhi, não é o alguma coisa que certamente me arrependeria. Sem heroísmo, por favor. Os covardes é que ganharam a guerra - por serem as línguas dos olhos que morreram.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Posfácio


Após anos imerso em livros, perseguindo todas as pistas e unindo os fatos, as provas levaram a resposta do grande enigma: as coisas acontecem sem razão.

Na condição suprema de concluir, nada como perceber o óbvio com perfeccionismo. À deriva, o grande mar da irrelevância, e seus majestosos maremotos.


Re-existir

Em cada belo texto, rascunhos.
Em cada bela casa, a montanha de entulho da reforma.
Em cada minimalismo, a profusão de um lixão a céu aberto.
Em cada bela mulher, seu lado de dentro, e a privacidade do cheiro de sua flatulência.
Em cada convicção, a vergonha do que não foi dito.
Em cada cada, o resto.